BIM virou exigência de edital. Pede-se o modelo, entrega-se o modelo, marca-se o quadradinho. E muita obra que tinha BIM no contrato chegou ao canteiro com os mesmos conflitos de sempre, porque o modelo serviu para cumprir a licitação, não para tomar decisão. O 3D caro virou enfeite. A coordenação, que era o ponto, ficou de fora.
Existe uma confusão na raiz disso. Acha-se que coordenação BIM é rodar a detecção automática de interferências e gerar um relatório com quinhentos, oitocentos, mil conflitos. Quanto maior o número, mais impressionante parece o trabalho. Só que esse número, sozinho, não diz nada. Boa parte daquelas interferências é ruído: tolerância de modelagem, encontro que se resolve sozinho no detalhamento, sobreposição que não significa problema nenhum na obra.
Contar conflito não é coordenar
O relatório inflado tem um custo escondido. Ele afoga a interferência que importa no meio de centenas que não importam. A coordenação que entrega só a lista deixa o problema mais caro de achar do que se não tivesse lista nenhuma. Alguém ainda precisa ler aquilo, separar o que é grave do que é ruído, e decidir o que fazer. Se esse trabalho não é feito, o modelo não decidiu nada. Só transferiu a decisão para a obra, que é o lugar mais caro de decidir.
A compatibilização que protege a margem é a que faz o contrário. Ela não se orgulha do tamanho do relatório. Ela persegue a interferência que, se passar, vira parede quebrada, tubulação refeita, aditivo de empreiteiro e cronograma estourado. Achar essa, e resolver essa antes da obra, vale mais do que catalogar mil que não dão em nada.
O que coordenar de verdade exige
Coordenar de verdade é mais do que cruzar disciplinas diferentes e ver onde elas se tocam. Boa parte dos conflitos que chegam ao canteiro não está entre estrutura e hidráulica. Está dentro da mesma disciplina: estrutural que não fecha com ele mesmo, instalação que se atravessa. A detecção automática que só compara disciplina contra disciplina passa longe disso. Quem coordena olhando a obra pega esses também.
E os conflitos não aparecem todos no primeiro dia. Eles crescem conforme o projeto detalha. Nascem aos poucos no estudo preliminar e explodem no pré-executivo, quando cada disciplina fecha o seu detalhe e os encontros ficam inevitáveis. Por isso coordenação não é um evento, é um processo que acompanha o projeto do começo ao fim. Entrar só na véspera de concretar é chegar tarde.
Tem ainda a parte que parece burocracia até o dia em que salva: o registro. Decisão de obra que fica no WhatsApp some. Some justo na hora em que alguém pergunta, seis meses depois, por que aquele furo mudou de lugar e quem autorizou. Coordenação que presta deixa cada apontamento e cada decisão rastreável num ambiente comum de dados. Não por formalidade. Porque é o que dá validade técnica à decisão e protege o incorporador quando a conta é questionada.
Por que isso é decisão de negócio, não de engenharia
O incorporador não compra modelo BIM. Compra obra que começa com o projeto de pé. A diferença entre as duas coordenações aparece na conta lá na frente. Um conflito resolvido no projeto custa uma fração do mesmo problema descoberto na obra, e os benchmarks do setor colocam essa diferença na casa das dezenas de vezes. O retorno de uma coordenação bem feita não está no relatório. Está no retrabalho que não aconteceu, no aditivo que não veio e no prazo que se cumpriu.
Foi o que vimos num empreendimento de 13 mil m² em Florianópolis: 791 conflitos achados ao longo de 22 meses entre 8 disciplinas, 95% resolvidos ainda no projeto, antes de virarem retrabalho no canteiro. O número de conflitos não foi o troféu. O troféu foi a obra que começou resolvida.
Para levar para o próximo empreendimento
- Não avalie a coordenação pelo tamanho do relatório de interferências. Pergunte quantas das graves foram resolvidas antes da obra.
- Cobre coordenação dentro da disciplina, não só entre disciplinas. É lá que mora boa parte do retrabalho.
- Exija coordenação desde o estudo preliminar, acompanhando o projeto. Entrar perto da obra é decidir caro.
- Garanta que toda decisão fique registrada e rastreável. O que não tem registro não tem como defender depois.
É isso que a gente entende por coordenação BIM: achar cedo o que custaria caro e deixar a obra começar com o projeto resolvido. Se você quer esse tipo de previsibilidade no seu próximo empreendimento, fale com a Cartesian.
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